fevereiro 01, 2006

 

Classe desunida

Quem lê as notícias de game design estrangeiras provavelmente já soube da troca de farpas entre os estúdios da Eletronic Arts e da Ubisoft em Montreal. Aparentemente, a EA contratou um ex-funcionário (nome não divulgado) da Ubi e imediatamente mandou uma carta aberta à concorrente reclamando da cláusula de não-concorrência que todos os funcionários da Ubisoft Montreal precisam assinar, que diz que eles não poderão trabalhar para nenhuma concorrente direta no período de até 1 ano após o desligamento da empresa. Um caso similar aconteceu no final de 2003, quando a recém-inaugurada EA Montreal tentou contratar 4 ex-funcionários da Ubi envolvidos no desenvolvimento da série Splinter Cell. A corte canadense decidiu pelo cumprimento da cláusula contratual, que segundo a Ubisoft, é prática comum na indústria daquele país.

Agora, o que realmente me deixa ressabiado, é o fato da Eletronic Arts ter tido a iniciativa de mandar a carta, juntamente com o anúncio da contratação. Os representantes da Ubisoft garantiram que, apesar de já ter havido uma média de 5% de rotatividade de pessoal na história do estúdio, a cláusula - presente em todos os contratos - só foi acionada uma vez (na supracitada batalha contra a EA), e que eles só acionam a cláusula caso julguem que há informações importantes em jogo. Por outro lado, a Eletronic Arts diz que a cláusula é abusiva, que o produto da Ubisoft já é protegido por NDA's (Non-Disclosure Agreement) e pelas leis de copyright.

Antes de mais nada, eu queria saber quem foi o sujeito que desencadeou essa atitude tão incomum. Na certa, deve ser algum nome forte, pra Eletronic Arts ter se antecipado ao ataque. Depois, eu queria entender por que essas coisas acontecem. A indústria de jogos, como qualquer outra, tem uma necessidade feroz de proteger a "propriedade intelectual", mesmo tendo conceitos muito mal-definidos do que exatamente é PI em um game. Uma cláusula proibindo você de trabalhar em outro lugar durante 1 ano após sua dispensa é cruel? É. Mas por outro lado, me lembro que na última reunião de projeto que tive com um publisher em potencial, ele queria que TODOS os meus futuros projetos passassem por ele. Perto disso, um ano parece bem razoável. Mas claro, os projetos em andamento de um estúdio são realmente protegidos por diversas leis, então por que mais isso?

Porque é óbvio que, uma vez trabalhando dentro das paredes da concorrente, é muito nebuloso o limite da confidencialidade e da "inspiração". Jogos são código-fonte: uma vez compilados, é difícil dizer que ali no meio tinha um algoritmo proprietário ou não. O mundo da informática é lotado de acusações e batalhas judiciais baseadas na desconfiança de que um ou outro código foi roubado ou copiado descaradamente.

Agora, será que a indústria de jogos realmente precisa disso? Será que o mais importante é o código do shader ou a qualidade do modelo 3D criado pelo ex-funcionário, que não pode ser assimilado pela concorrente? É realmente a excelência técnica que faz um jogo? Porque toda a idéia, o gameplay, o enredo, o estilo, isso realmente não dá pra "piratear". Se sai um jogo da EA praticamente idêntico a um da Ubisoft lançado 6 meses antes, sabendo que teve funcionário pulando de uma pra outra no meio do processo, a violação do NDA se torna bem óbvia.

Isso, para mim, só vem a demonstrar o pé em que a indústria se encontra hoje em dia: tão centrada na excelência técnica quanto as desenvolvedoras de Sistemas Operacionais, e esquecendo totalmente do que realmente faz um bom jogo: originalidade e criatividade.

Comments:
Eu acho muito cômodo a EA sair em público dizendo uma coisa tão bonita quanto "stop the illegitimate practice of forcing talented people to sign employment contracts that restrict their creative and economic freedom" ... depois do escândalo que foi aquele blog da mulher de um funcionário da mesma empresa que vivia em horários abusivos e absurdos... extremamente hipócrita!

E acho o ponto da questão técnica mto válido... vide Longhorn que não apresentou até agora nenhuma novidade em sua interface e/ou usabilidade, o que vem acontecendo periodicamente nos MacOS como comparação.
 
Talvez aqui no Brasil, país onde (ainda) temos uma legislação trabalhista forte e que protege o trabalhador, nós não compreendamos os motivos que levam uma companhia como a Ubi a fazer tais contratos. Mas esse tipo de negócio é bastante comum nos EUA e nos países da Commonwealth britânica (UK, Canadá, Índia, África do Sul, Austrália e outros menores). Acho que cada caso deve ser avaliado independentemente, mas que rola muita hipocrisia nessa história toda, ah isso rola...
 
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